EnvelheSER - O que pode significar

11 de Janeiro

A partir das 9H30

Cinema São Jorge - Lisboa

ESTREIA
NACIONAL

Estreia da Curta-Metragem premiada Cycling Without Age seguida de uma conversa com oradores convidados sobre os desafios do envelhecimento.

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Solidão dos mais velhos: “As gerações não se aproximam pelas tecnologias, mas quando se veem e convivem” – Diana Gaspar, psicóloga clínica

A solidão na velhice é hoje reconhecida como um problema de saúde pública, com impactos diretos no bem-estar emocional, cognitivo e físico. Em entrevista, Diana Gaspar, psicóloga clínica e embaixadora da Pedalar Sem Idade Portugal, analisa os efeitos do isolamento prolongado, desmonta mitos sobre o envelhecimento e sublinha a importância das relações com significado. A conversa aborda ainda o papel das comunidades e das iniciativas intergeracionais na promoção da saúde mental e do sentido de pertença.

A solidão é, hoje, considerada um problema de saúde pública. Do ponto de vista clínico, como descreve o impacto emocional e cognitivo do isolamento prolongado nas pessoas mais velhas?

O envelhecimento traz sempre algum tipo de perda e, por isso, uma maior probabilidade de se ir ficando sozinho de forma prolongada. Quanto mais sós, mais riscos de isolamento há, sendo a perceção de invisibilidade e de ausência de importância também maior. E, se se sentem invisíveis e não importantes, o medo de ser esquecido também aumenta, daí afirmarmos que a solidão, mais do que significar estar sozinho, significa deixar de ser importante para alguém e perder reconhecimento.

Todos estes fatores fazem aumentar os quadros depressivos e de ansiedade, estando também associados à perda de competências cognitivas, a quadros demenciais e a doenças cardiovasculares. Também sabemos que os idosos com pouco contacto social apresentam uma perda de volume cerebral, como consequência dos estados demenciais e da solidão.

O envelhecimento traz sempre algum tipo de perda e, por isso, uma maior probabilidade de se ir ficando sozinho de forma prolongada.

Que mitos sobre envelhecimento continuam a limitar a forma como olhamos para a terceira idade? De que forma a Psicologia Positiva ajuda a desmontá-los?

“Não paramos de brincar porque envelhecemos, envelhecemos porque paramos de brincar” – George Bernard Shaw. Muitas vezes resumimos o envelhecimento a um somatório de perdas e temos dificuldade em perceber que só envelhecemos verdadeiramente quando deixamos de estimular o corpo e a mente, quando deixamos de querer conviver e de nos divertirmos e quando a vida deixa de ter um propósito e um sentido.

Numa sociedade onde se glorifica e valoriza a autossuficiência, todos perdemos, porque todos precisamos de todos, os mais velhos de nós e nós dos mais velhos. Porque todos, de uma forma ou de outra, somos vulneráveis e precisamos de vínculos com os outros para nos mantermos saudáveis.

A psicologia mostra-nos que é fundamental criarmos programas onde os mais novos possam conviver de forma regular com os mais velhos, para partilharem experiências e estimularem a comunicação.

Por um lado, sabemos que um estilo de vida ativo, promotor de saúde física, mental e cognitiva, com hábitos que estimulem a saúde global, mostra ser o maior preditor de longevidade, não necessariamente a idade. Daí vermos muitas pessoas mais velhas com mais energia e entusiasmo do que os mais novos. Por outro lado, os mais velhos têm um papel fundamental na influência dos mais novos, quer pela disponibilidade de tempo que têm, quer pela importância da transmissão de valores e do vínculo geracional. Os mais velhos são muito importantes e precisam de sentir que o são.

A psicologia mostra-nos que é fundamental criarmos programas onde os mais novos possam conviver de forma regular com os mais velhos, para partilharem experiências e estimularem a comunicação, o afeto, o vínculo e o apoio mútuo. Sabemos que os idosos têm uma maior disponibilidade para ajudar, são mais atentos e são em si um exemplo de resiliência e superação. Esta presença na vida uns dos outros ajuda a construção de vínculos intergeracionais que promovem um sentido de pertença à comunidade e de passagem de cultura, vivências e valores, que fomenta a cooperação, a empatia, a gentileza, o respeito e a importância de todos.

Solidão na velhice
Solidão na velhiceCréditos: Designed by Freepik www.freepik.com

Há quem afirme que a solidão não resulta apenas de falta de companhia, mas de ausência de relações com significado. Como se constrói, na prática, esse “significado” em fases da vida marcadas por perdas, fragilidade ou transições?

Podemos estar acompanhados e sentirmo-nos sós, quando não comunicamos, quando não nos sentimos vinculados com os que nos envolvem e quando sentimos que a nossa presença não acrescenta valor. Mas também podemos ter momentos em que estamos sós e sentirmo-nos acompanhados, como quando sentimos que temos uma rede de apoio que nos faz sentir importantes e reconhecidos.

Hoje, trocamos o estar em comunidade por aquilo que, aparentemente, nos convém, construindo uma sociedade muito individualizada e uma convivência pela eficiência profissional. Acabamos por querer fazer o que dá menos trabalho e é mais eficaz e isso pode significar estarmos mais sozinhos, não priorizar visitas a amigos e familiares, estar mais em grupo e vermos o tempo traduzido em produtividade.

No entanto, estando mais produtivos nunca estivemos tão sozinhos, os mais velhos e os mais novos. Sabemos que, para promovermos a saúde mental e nos sentirmos melhor, precisamos de fazer o que gostamos, de desenvolver interesses e gostos, de comunicar de forma aberta sem medo de expor vulnerabilidades, de ir ao encontro dos outros e de partilhar experiências e atividades de forma presencial.

A melhor forma de não alimentarmos a solidão é sentirmos que nutrimos relações que são importantes, onde podemos falar sobre o que gostamos, fazer o que nos entusiasma e estar onde nos sentimos vistos e importantes. Tudo isto é tão válido para os mais velhos como para os mais novos.

A melhor forma de não alimentarmos a solidão é sentirmos que nutrimos relações que são importantes, onde podemos falar sobre o que gostamos, fazer o que nos entusiasma.

A tecnologia tem sido apresentada como solução para aproximar gerações. Na sua experiência clínica, quando é que estas ferramentas realmente ajudam? Também podem gerar uma falsa sensação de presença?

Sabemos que quanto mais tempo passamos online, especialmente quando há ausência de ligação presencial, mais sós nos sentimos. Estamos mais visíveis do que nunca, mas também mais isolados. Por isso, tenho alguma dificuldade em perceber a aproximação de gerações pelas tecnologias e acho que criam uma falsa sensação de disponibilidade. Acredito que as gerações se aproximam quando se veem, quando conversam, quando se estimulam mutuamente, quando convivem e quando partilham momentos e experiências.

As famílias vivem hoje sob forte pressão laboral e emocional. Como podem reorganizar rotinas para integrar os mais velhos sem transformar esse apoio num fardo?

Mais do que reorganizar rotinas, acredito que o importante é repensar os valores que temos enquanto sociedade. Valorizamos muito mais o fazer e o ter, do que o estar e o partilhar. Tudo o que atrapalhe a eficiência profissional não é importante nem uma prioridade. E são estas formas de estar e de viver que nos colocam longe uns dos outros, que nos fazem sentir que não temos tempo para avós, filhos e amigos e que nos colocam no caminho do burnout, que está tão presente na nossa sociedade como a solidão. Aliás, até acho que um alimenta o outro.

Mudando o ângulo e redefinindo valores, os mais velhos ganham o seu espaço e o valor que merecem, enquanto nós ganhamos uma vida mais rica com a partilha de momentos com eles. Assim sendo, mais do que pensar em como os colocar nas rotinas, acredito que é urgente repensar em como estamos a viver em todas as faixas etárias e no que estamos a perder em deixá-los cada vez mais sós. Todos perdemos.

Valorizamos muito mais o fazer e o ter, do que o estar e o partilhar. Tudo o que atrapalhe a eficiência profissional não é importante nem uma prioridade. E são estas formas de estar e de viver que nos colocam longe uns dos outros.

Que papel devem ter as comunidades – autarquias, redes locais, instituições culturais – na criação de ambientes que promovam propósito, participação e bem-estar psicológico na idade avançada?

As comunidades devem apoiar associações como a Pedalar Sem Idade, criar programas comunitários e de voluntariado que aproximem as gerações através da convivência regular com carácter educativo e lúdico, criar mais espaços e parques verdes para passear, conviver com bons acessos de mobilidade e promover hábitos de rua mesmo nas pessoas institucionalizadas.

Também é essencial educar para passear em parques, praias e exposições mesmo com frio e chuva, como o fazem os países mais felizes do mundo, organizar atividades de bairro e redes locais de convívio, criar mais espaços para a prática desportiva e cultivar cada vez mais o exercício físico, promover o contacto com a natureza, facilitando a mobilidade de todos, criar espaços sociais com leitura e expressão artística e cultural e, por fim, criar comunidades de todos para todos.

Referiu atrás a associação Pedalar Sem Idade e é desta embaixadora. Para quem ainda não conhece, o que é a Pedalar Sem Idade Portugal e como descreve a missão deste projeto?

Pedalar Sem Idade é uma associação sem fins lucrativos que chegou a Portugal, mais precisamente a Lisboa, em 2018, inspirada no movimento internacional Cycling Without Age. A iniciativa nasceu em Copenhaga, com o propósito de dar aos idosos e pessoas com mobilidade reduzida a sensação única de voltar a andar de bicicleta e de sentir o “vento nos cabelos”.

Através de passeios regulares em veículos de três rodas equipados com um sofá confortável (“trishaws”), os passageiros têm a oportunidade de (re)visitar a região onde residem, desfrutando de um momento de convívio e partilha. Desta forma, é concretizada a missão de combater a solidão e o isolamento social não desejados, promovendo a inclusão e a intergeracionalidade, através de passeios gratuitos conduzidos por voluntários formados.

Enquanto psicóloga clínica com especialização em Psicologia Positiva, que benefícios psicológicos reconhece nesta experiência, tanto para os passageiros, como para os voluntários?

A Psicologia Positiva pretende promover a saúde mental, através da estimulação de variáveis individuais e comunitárias. Sabemos que precisamos uns dos outros para construir pontes de vinculação, conexão e entreajuda, para atingirmos uma sociedade mais confiante e saudável, do ponto de vista mental. Na Pedalar Sem Idade, impulsionamos todos estes fatores, uma vez que os passeios de “trishaw” são eventos que têm um impacto muito positivo.

A ciência mostra-nos que há inúmeros hábitos e comportamentos que nos fazem sentir melhor e que alimentam estados positivos, como o contacto com a natureza, a caminhar, a pedalar ou a correr, o contacto com a cultura e com a comunidade, a possibilidade de conhecer mais pessoas e histórias, o sentido de pertença, a contribuição social e o movimento físico. Podemos encontrá-los a todos nos passeios da Pedalar Sem Idade, o que é fascinante.

A entreajuda, a partilha e a cooperação são promotores de saúde mental e, para muitos idosos e pessoas com mobilidade reduzida, os passeios são a experiência mais gratificante dos seus últimos dias, meses e até anos de vida, enquanto se revelam um estimulante cognitivo e sensorial essencial para a saúde global. Os estudos da área da Psicologia demonstram, ainda, que a conexão social vai além dos relacionamentos íntimos, sendo crucial para a saúde mental. Todos estes fatores justificam novas medidas de prescrição social, nas quais a Pedalar Sem Idade se encaixa na perfeição.

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