Durante o ano, a solidão faz parte da rotina, mas, nesta altura, ganha outra dimensão, com familiares e amigos a deixar mais saudades do que nunca.
A época natalícia é feita de festa, união, luzes, decorações e conversas, pelo menos, para a sociedade de um modo geral. Associar o Natal a felicidade é visto como um dever coletivo, mesmo quando há tantas pessoas que resumem o resumem a memórias, solidão e silêncio. São, sem dúvida, fatores difíceis de ignorar nesta altura, numa casa que permanece vazia, enquanto na rua se multiplicam os abraços e as celebrações.
Num país tão envelhecido como Portugal, o número de pessoas seniores a viver sozinhas ou isoladas é preocupante e representa uma grave questão estrutural. A Operação Censos Sénior 2025 da Guarda Nacional Republicana (GNR) sinalizou 35.143 pessoas em situação de solidão, isolamento ou vulnerabilidade, um valor que revela falta de respostas e uma comunidade que continua a excluir os mais velhos. Afinal, a união e o amor do Natal não chegam a todos.
A exclusão social continua a condicionar a vida de muitas pessoas, para quem envelhecer parece ser sinónimo de cair em esquecimento. Durante o ano, a solidão faz parte da rotina, mas, nesta altura, ganha outra dimensão, com familiares e amigos a deixar mais saudades do que nunca. E quando as gargalhadas de Natal invadem anúncios, revistas, rádios e televisões, quem tem falta de companhia, compreensão e apoio emocional sente-se verdadeiramente invisível.
A responsabilidade não recai apenas sobre familiares que se afastam ou amigos que se perdem. O isolamento parte de uma cultura que prioriza a produtividade, a rapidez e a juventude, colocando tudo o resto em segundo plano. Aceitar este cenário é acreditar que o envelhecimento é perda de valor, quando deveria ser sabedoria, memória, história e, sobretudo, respeito e dignidade. E a mudança de pensamento pode, e deve, começar hoje.
O Natal é um ponto de viragem, a oportunidade ideal para interromper a correria do dia a dia, para olhar em redor e dar a mão a quem ficou para trás. Basta uma mensagem, um telefonema, uma visita, uma conversa ou um passeio para devolver significado e sentido de pertença a alguém. Gestos simples que podem fazer a diferença.
Mais do que uma época marcada pelas compras e pelas agendas ocupadas, o Natal deveria ser um lembrete da importância de cada pessoa. A união não se mede pelo número de lugares à mesa, mas pela capacidade de arranjar espaço para mais um. Na verdade, cuidar dos outros não é um dever exclusivo do Natal, mas talvez seja esta a altura mais indicada para iniciar um compromisso contínuo com o respeito pelo valor de todos nós.